Levantamento do Inpe localiza a maior parte dos registros em propriedades privadas cadastradas; fogo voltou a avançar no entorno de Manaus.
As queimadas no Amazonas tiveram 1.639 focos detectados pelo satélite de referência do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) entre 1º e 15 de outubro de 2026. Uma análise feita pelo instituto a pedido do g1 identificou 79,1% desses registros dentro de imóveis rurais privados com Cadastro Ambiental Rural (CAR).
No entorno de Manaus, o fogo voltou a avançar a partir de 4 de outubro, após ter recuado no fim de setembro, segundo levantamento do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam). A região enfrenta seca, que facilita a propagação das chamas. As autoridades investigam o uso irregular do fogo; a localização dos focos em imóveis cadastrados, por si só, não identifica quem iniciou cada queimada.
Qual é o índice de queimadas no Amazonas em 2026
Os focos no entorno de Manaus estão 109% acima da média histórica no acumulado de 1º de janeiro a 14 de outubro de 2026, de acordo com o Ipam. O levantamento reúne 19 municípios das regiões metropolitana e central do estado e contabilizou 15.674 registros no período. Entre os anos analisados pelo instituto, apenas 2023, marcado por uma seca histórica, teve mais focos.
A mudança mais acentuada ocorreu entre 4 e 14 de outubro: o Ipam registrou 5.598 focos, ante 149 no mesmo intervalo de 2025. Esse levantamento usa dados de um sensor que detecta mais focos do que o satélite de referência empregado pelo Inpe na contagem estadual. Por isso, os totais apresentados pelos dois levantamentos não devem ser tratados como se medissem a mesma área com o mesmo método.
Onde se concentram os focos de fogo
A maior parte dos focos detectados no Amazonas na primeira metade de outubro ficou dentro de imóveis rurais privados com CAR, segundo a análise do Inpe. Ao examinar o uso do solo, os dados mostram que 52,8% dos registros ocorreram em áreas desmatadas nos três anos anteriores; outros 15,9% atingiram vegetação nativa.
Dados do Inpe para o estado entre 1º e 15 de outubro de 2026
- 1.639Focos detectadosSatélite de referência do Inpe
- 52,8%Áreas desmatadasDesmatadas nos três anos anteriores
- 15,9%Vegetação nativaFocos que atingiram vegetação nativa
Estar dentro de uma propriedade cadastrada não comprova, isoladamente, a autoria de um incêndio. O dado ajuda a orientar a investigação sobre onde o fogo começa e por quais áreas ele se espalha.
O que causa as queimadas na Amazônia
O uso humano do fogo e a seca aparecem juntos na explicação para a crise no Amazonas. Segundo o Ibama, a estiagem favorece a propagação das chamas, mas há indícios de ação humana que estão sob investigação. O órgão relatou ter encontrado garrafas com combustível lançadas ao longo de estradas durante uma operação de combate a incêndios.
Para usar fogo no manejo do solo, como na limpeza de pastagens, é necessária autorização estadual para cada caso, conforme a reportagem do g1. O governo do Amazonas proibiu o uso do fogo no estado em 9 de setembro de 2026, mas os incêndios continuaram. A Polícia Federal e a Agência Brasileira de Inteligência investigam suspeitas de ação criminosa; segundo a Polícia Civil do Amazonas, há mais de 120 procedimentos criminais sobre o tema.
Como pode haver mais fogo com menos desmatamento
Desmatamento e queimadas medem fenômenos diferentes: o primeiro registra a derrubada da floresta, enquanto o fogo também pode ocorrer em terrenos abertos anteriormente. Dados do Inpe citados pelo g1 apontam 3.335 km² desmatados entre agosto de 2025 e julho de 2026, o menor índice da série iniciada em 1988. Isso não impede que áreas já derrubadas sejam queimadas depois.
A vegetação nativa também pode ser atingida mesmo quando o fogo começa fora dela. Segundo a análise apresentada na reportagem, a seca resseca a vegetação e permite que as chamas avancem para além do foco inicial.
Quais são as consequências e como ocorre a fiscalização
Os incêndios têm levado fumaça a cidades do Amazonas, incluindo Manaus, e alcançado áreas de vegetação nativa. Dados do Instituto Nacional de Meteorologia citados pelo g1 mostram que a capital acumulou 104 milímetros de chuva entre julho e 21 de outubro de 2026, diante de 316 milímetros esperados para o período.

O Ibama informou ter aplicado R$ 2 milhões em multas em ações iniciadas em 12 de outubro nos municípios de Autazes e Careiro da Várzea. Segundo o órgão federal, a fiscalização do uso do fogo nas propriedades cabe ao governo estadual. Procurado pelo g1, o governo do Amazonas não havia respondido até a publicação da reportagem.
Foto de capa: Amazônia Real from Manaus AM, Brasil/Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

