Investigadores apontam vazamento de agendas e horários de inspeções em postos de combustíveis no Rio de Janeiro.
Um grupo investigado por suspeita de lavagem de dinheiro em postos de combustíveis no Rio de Janeiro recebia informações antecipadas sobre fiscalizações, segundo a Polícia Federal. Os avisos incluíam os locais a serem vistoriados, a programação das equipes e o horário de uma inspeção.
A suspeita integra a investigação que levou à prisão do deputado estadual eleito e ex-prefeito de Belford Roxo Márcio Canella, na quinta-feira, 15 de outubro. Para a PF, a rede de postos era usada no suposto esquema, que teria a participação de agentes públicos. O acesso prévio às fiscalizações, afirmam os investigadores, poderia dificultar a identificação de irregularidades na venda de combustíveis.
Como chegavam os avisos
Segundo a PF, servidores ligados à defesa do consumidor passavam informações ao advogado Diogo Pacheco do Couto. Ele as encaminhava ao policial civil Pablo Jukiá Felix Ferreira, conhecido como Pablo Russo. A investigação também aponta que Pablo tinha o contato de um dos servidores e poderia obter dados diretamente com ele.
Mensagens encontradas no celular de Pablo mostram repasses entre abril e maio de 2026, de acordo com a representação policial. A sequência descrita pelos investigadores inclui:
- 9 de abril: aviso sobre uma vistoria prevista em um posto em Raul Veiga.
- 10 de abril: envio de dados do veículo utilizado pelos fiscais.
- 13 de abril: repasse da programação semanal e de um alerta sobre o Posto Barcellos.
- 15 e 16 de abril: informação sobre uma inspeção em São Gonçalo e, depois, sobre seu início às 9h30.
- 13 de maio: aviso de uma possível fiscalização no Posto Portal da Serra.
O que a PF apura nos postos
A Polícia Federal atribui a Canella a articulação política do grupo e aponta o delegado Marcus Amim, ex-secretário de Polícia Civil, como responsável por sua proteção institucional. Pablo e José Carlos Alves de Souza Júnior seriam, segundo a investigação, os gestores efetivos dos postos, embora muitas empresas estivessem registradas em nome das mulheres dos dois. Os papéis atribuídos a cada um são suspeitas apresentadas pela PF, não conclusões judiciais definitivas.
Movimentações analisadas e medidas da operação policial.
- 2.171Operações suspeitas comunicadasComunicações reunidas no relatório
- 835Pessoas interligadasPessoas físicas e jurídicas
- seisMandados de prisãoNa ação de quinta-feira
- 16Buscas e apreensõesMandados expedidos na operação
O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, afirmou na decisão que os dados vazados não eram públicos. Entre as inspeções mencionadas no caso estava uma destinada a conferir se o volume de combustível fornecido pelas bombas correspondia ao registrado. Para os investigadores, conhecer essas ações antes de sua realização ajudaria o grupo a reduzir a eficácia da fiscalização.
Em uma conversa analisada pela PF, José Carlos afirmou que a rede tinha 43 postos de bandeira BR ao discutir limites de fornecimento de combustível. Um relatório de inteligência financeira citado pela Procuradoria-Geral da República reúne 2.171 comunicações de operações suspeitas, relacionadas a 835 pessoas físicas e jurídicas, com movimentação global estimada em R$ 7,64 bilhões entre maio de 2020 e março de 2026. Esse total representa as movimentações examinadas, não um valor comprovado judicialmente como dinheiro lavado.
Relato de um antigo sócio
A investigação também inclui o depoimento de um homem que disse ter investido em um dos postos. Segundo ele, ao cobrar a devolução do dinheiro, passou a receber ameaças de Pablo e José Carlos e a enfrentar fiscalizações de diferentes órgãos. Trata-se de uma declaração apresentada à PF para fundamentar os pedidos de prisão.
O depoente afirmou ainda que os dois compravam postos em parcelas, deixavam de pagar após as primeiras prestações e permaneciam com os estabelecimentos. A PF investiga esse relato junto aos demais elementos reunidos na operação.
Prisões e respostas das defesas
A ação de quinta-feira foi a oitava fase da Operação Unha e Carne, desdobramento de buscas realizadas em julho. A PF saiu para cumprir seis mandados de prisão e 16 de busca e apreensão. Além de Canella, foram presos Amim, Pablo, José Carlos e os policiais civis Christiano e Giovanni Gaspar Fernandes.
A defesa de Amim informou que aguardará acesso aos autos antes de se manifestar. A defesa de Canella também disse que não se posicionaria naquele momento, pois ainda não tinha acesso à decisão que determinou a prisão.
Com informações de g1.
Foto de capa: Aline M Vieira/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

