Produtora reconheceu falha no planejamento da acessibilidade após a retirada das intérpretes do palco.
A sessão de 18 de outubro de 2026 da peça “Fim de Partida”, no Teatro Simões Lopes Neto, em Porto Alegre, foi interrompida e voltou a ser apresentada sem interpretação em Libras. A produtora Pequena Central de Produções Artísticas informou que houve um problema entre a iluminação do espetáculo e a posição de uma intérprete no palco.
O ator surdo Lucas Bourscheid, de 32 anos, estava na plateia e contou ao g1 que o cancelamento da interpretação deixou espectadores assustados e frustrados. Segundo relatos de pessoas que assistiam à peça, Marco Nanini pediu a retirada das intérpretes porque a luz usada para iluminá-las atrapalhava sua atuação. O g1 informou que tentou ouvir o ator, mas não recebeu resposta até a publicação da reportagem.
Por que a interpretação em Libras foi interrompida?
A produtora afirmou que a equipe tentou ajustar a iluminação durante uma pausa na apresentação, mas não encontrou uma solução naquele momento. A Pequena Central reconheceu que não havia verificado antes da sessão as condições técnicas necessárias para oferecer a interpretação em Libras e assumiu a responsabilidade pela falha. A Fundação Theatro São Pedro, responsável pelo espaço, também disse que participou da busca por alternativas e lamentou o prejuízo ao público surdo.
Datas e momento relatados na cobertura da apresentação em Porto Alegre
- 17 de outubroPrimeira sessãoSem registro de intercorrências
- 18 de outubroSessão interrompidaInterpretação em Libras foi suspensa
- cerca de cinco minutosInício da movimentaçãoTempo após o começo, segundo espectador
De acordo com Bourscheid, a retirada das intérpretes levou parte dos espectadores a sair do teatro, tanto por não conseguir acompanhar a peça quanto em protesto. Ele relatou que Nanini foi vaiado. A apresentação também havia sido anunciada com audiodescrição; as notas divulgadas pela produtora e pela fundação tratam da suspensão da interpretação em Libras, sem informar que a audiodescrição tenha sido interrompida.
O que é Libras e por que ela é importante?
A Língua Brasileira de Sinais (Libras) é uma língua usada por pessoas surdas no Brasil e reconhecida legalmente como meio de comunicação e expressão. Não se trata de português representado por gestos: ela tem estrutura e regras próprias, segundo o material de referência sobre o tema. Em uma peça teatral, a interpretação permite que espectadores que usam Libras acompanhem o conteúdo apresentado no palco.
Bourscheid, que também é ator, defendeu que os recursos de acessibilidade sejam considerados desde a preparação dos espetáculos. Ele citou um trabalho em que atua ao lado de um ator ouvinte e que oferece interpretação por voz em português ao público ouvinte. Para ele, retirar um recurso durante a apresentação pode fazer o espectador se sentir excluído.
Como a Libras funciona?
A Libras combina movimentos, posições das mãos, pontos de articulação no corpo ou no espaço e expressões faciais e corporais. Seus sinais fazem parte de uma língua visual com gramática própria, não de uma sequência de gestos que reproduz palavra por palavra o português. Assim como ocorre com outras línguas, há variações regionais na forma de expressar determinadas ideias.
Libras é universal?
Não. Países diferentes têm línguas de sinais próprias; em Portugal, por exemplo, é usada a Língua Gestual Portuguesa. O material de referência também registra a existência de outras línguas de sinais no Brasil, além da Libras.
Como surgiu a Libras e quando ela foi reconhecida?
A Libras se desenvolveu a partir do contato entre uma língua de sinais já usada no Brasil e uma antiga língua de sinais francesa. Esse encontro está ligado à história do atual Instituto Nacional de Educação de Surdos, fundado em 1857, conforme o material de referência.
O reconhecimento da Libras como meio legal de comunicação e expressão veio com a Lei 10.436, de 24 de abril de 2002. Esse reconhecimento não a tornou a segunda língua oficial do país nem substituiu o português em sua modalidade escrita.
Foto de capa: TimBray/Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

