Pacientes também relatam sequelas; conselho médico aponta falhas e proprietária nega irregularidades.
A Polícia Civil do Rio de Janeiro investiga a morte de três mulheres após cirurgias plásticas na clínica Celita Toledo, em Laranjeiras, na Zona Sul da capital. A apuração também reúne denúncias de pacientes com complicações graves e examina a suspeita de que alunos de pós-graduação tenham realizado procedimentos no lugar dos médicos responsáveis.
Segundo reportagem do g1 publicada em 19 de outubro, a investigação começou há cerca de seis meses. A polícia apura relatos de pelo menos 30 pacientes; o inquérito reúne denúncias de outras 24 mulheres com sequelas, além das três mortes. A clínica continua funcionando e sua proprietária nega irregularidades.
Mortes e relatos das pacientes
Entre os casos investigados está o da técnica de enfermagem Isabely, de 42 anos, que morreu durante uma cirurgia no abdômen após sofrer paradas cardíacas. Seu marido, Cosme Viana, disse que o médico responsável informou à família sobre sucessivas complicações no procedimento. Segundo os familiares, o profissional que cuidou da anestesia havia se formado em 2023 e não tinha a especialização exigida por lei.
Jéssica, de 32 anos, morreu depois de dois meses de internação por infecção generalizada. De acordo com o marido, Geneir dos Santos, ela voltou à clínica por estar insatisfeita com cirurgias anteriores no peito e na barriga. Antes de um novo procedimento, o médico sugeriu uma remodelação costal, técnica proibida no Brasil para fins estéticos, segundo a reportagem; a paciente sofreu uma perfuração intestinal.
Sequelas denunciadas
A professora Adriane Oliveira relatou necrose na região do abdômen e uma infecção grave após uma cirurgia. Outras pacientes descreveram resultados desiguais e levantaram a suspeita de que mais de uma pessoa tenha atuado durante seus procedimentos. Os relatos integram as denúncias examinadas pela polícia; as circunstâncias de cada cirurgia ainda são objeto de apuração.
Mortes, denúncias e duração da apuração sobre a clínica.
- trêsMortes investigadasMulheres atendidas na clínica
- 24Outras mulheresDenúncias de sequelas e mutilações
- cerca de seis mesesTempo de investigaçãoAté a publicação da reportagem
Gisele Reis disse ter percebido diferenças entre os cortes e as suturas feitos em suas axilas. Thayze Santos relatou assimetria nas mamas após uma cirurgia com prótese e afirmou que recusou a oferta de reparo feita pela clínica por receio de voltar ao local.
Suspeita sobre a atuação de alunos
A polícia identificou convênios entre a clínica e instituições que oferecem pós-graduação em cirurgia plástica a médicos formados em outros países da América Latina. O delegado Wellington Vieira disse que os estudantes deveriam observar as técnicas, mas há indícios de que atuavam como cirurgiões sem o conhecimento das pacientes. Segundo ele, documentos apresentados pela clínica atribuem procedimentos a outros médicos.
A investigação busca confirmar se os alunos operavam sem supervisão. Em ações relacionadas ao caso, um sócio da clínica e um médico peruano sem registro profissional foram detidos e liberados depois de prestar depoimento.
Fiscalização e resposta da clínica
Vistorias do Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (Cremerj) apontaram falta de sala de recuperação pós-anestésica, ausência de anestesista e uso irregular de pós-graduandos como cirurgiões auxiliares. O conselho abriu um procedimento de interdição. A Vigilância Sanitária municipal também notificou a unidade após encontrar medicamentos vencidos e itens sem esterilização.
A proprietária Celita Toledo afirmou que as cirurgias são feitas por médicos habilitados, acompanhados pelos pós-graduandos. Ela negou falhas no atendimento e disse que colabora com os órgãos públicos. Apesar do procedimento de interdição aberto pelo Cremerj, a clínica seguia em funcionamento quando a reportagem foi publicada.
Foto de capa: Cyro A. Silva from Rio de Janeiro, Brasil/Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

